E agora, caro Teófilo, sentados à mesa eu te conto...

    Há muito tempo você tem me perguntado sobre o que é a comida. Tenho te falado bastante, mas não desta comida na Bíblia. Ali as pessoas se encontram, comemoram situações diversas, alegrias e dores diversas. Não são comemorações vazias, mas cheias de sentido. Lembra-se de quando me convidou para a festa de aniversário do seu filho? Não fui pela comida, mas fui pelo seu filho, e por você, por sua família. No entanto, a comida significava muito para você, pois ao redor da mesa nos encontrávamos, nos confraternizávamos.

    Pois é! Na Bíblia é assim também, como naquele aniversário! Só que o povo da Bíblia tem uma pequena diferença: não comemoram só a si, comemoram ao Senhor! Lembram-se sempre do que Ele fez no passado, o que faz no presente  e o louvam pelo que fará no futuro. Deus está perto deles, como está perto de nós.

    A comida, para eles, é entendida como Dom de Deus. Algo que estamos perdendo, infelizmente! Por isso ela é motivo de louvor, de alegria. Abrãao recebeu o Senhor, e lhe deu de comer. Que coisa interessante, não é? Está lá em Gênesis 18, muita fartura! No deserto choveu Maná: o que é isso? O povo pergunta! É Dom de Deus, ora! Porque é o Senhor quem sacia os famintos, faz justiça aos que são oprimidos, canta o Salmo 146. Você percebeu, Teófilo? A comida está ligada à justiça. A fartura está ligada ao estar bem e, sobretudo, com Deus e com os outros ... E é isso que é bênção de Deus.

    Você já leu os Evangelhos, Teófilo? São muitos os lugares em que se fala de comida. Muitas pessoas estão envolvidas e Jesus está envolvido com elas e com a comida. Ele almoça na casa de Simão, lá em Marcos 14; almoça com Levi, em Lucas 5;  multiplica o pão em João 6 e participa de festa de casamento em João 2. Poderia te dar uma lista enorme, mas quero lhe dizer somente sobre João 6. Quando Jesus pega os pães e peixes, Ele dá graças. Uma palavrinha grega muito bonita é usada ali, no versículo 11: eucharistesas. Você pode imaginar o que ela significa? Isso mesmo, Eucaristia. Isso é reconhecer que o que Ele tem nas mãos é de Deus, por isso não falta a ninguém. Viu? Jesus está na linha do povo antigo, do antigo Israel, mas ele vai mais longe: oferece a si mesmo como comida e como bebida. É este o ponto alto da nossa conversa, Teófilo. Jesus doou-se por inteiro, quis ficar em nosso meio. Quis que celebrássemos a saudade dele. Não há nada mais belo que este mistério da fé. É o mistério da fé. É por isso que respondemos na missa: “toda vez que comemos do pão e bebemos do cálice, recordamos a paixão de Jesus e ficamos esperando sua volta.”

    Como podemos beber deste cálice sem compromisso, Teófilo? Existe um jeito? Acho que não! Quando reconhecemos isso fazemos Eucaristia. Festa da partilha e da fartura, do muito e da sobra, mas de uma sobra boa, valorizada, que não apodrece.

    Aqui, meu caro Teófilo, vem a antiga pergunta: então porque muitos nada tem? É porque parece que nossa Eucaristia ainda não é verdadeira! Não é do jeito que Jesus queria. É como se eu fosse ao aniversário de seu filho só para a comida e não pelo encontro! Hoje muitos tem só para si, não repartem. Isso não é dar graças, não é Eucaristia. É por isso que as nossas missas correm o sério risco de serem vazias, porque nossas mãos não sabem doar e nem nossos olhos se elevarem aos céus, em agradecimento.

 

Altamir Celio de Andrade

Professor de Teologia Bíblica

 no Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio

em Juiz de Fora MG

www.rascunhus.com

 

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ESCREVA PARA: Xavier Cutajar