SACERDÓCIO

         Para uma real compreensão da distinção e relação entre sacerdócio ordenado, que está a serviço dos fiéis (o dos diáconos, padres e bispos) e o sacerdócio comum dos fiéis é preciso entender um mínimo sobre o sacerdócio na Bíblia e na práxis da Igreja.

1 – Sacerdócio no AT

Os textos que se referem ao sacerdócio no AT atestam a necessidade de uma separação. Para entrar em contato com as realidades sagradas, os levitas são postos à parte: não têm herança entre os filhos de Israel (Nm 18,23). O que queremos ressaltar é que no AT o sacerdote era alguém separado para a função. Até o recenseamento dos sacerdotes é feito separadamente do povo (Nm 3,15; 26,62). Havia toda uma série de eventos que mais o separavam do outros: banho ritual, investidura, unção, sacrifícios (Ex 28-29; 39; 40,13-15; Lv 8). Em tudo isso aparecida o sumo sacerdote como um ser elevado acima dos mortais comuns. O sacerdócio torna o homem no AT diferente de todos os homens, os paramentos sagrados exprimem sua glória sem paralelos (Eclo 45,7-13; 50,5-11).

 

Tudo isso, leva à conclusão de que Jesus não foi sacerdote nos moldes do AT:

 -                     a pessoa de Jesus não se apresentava como sacerdotal;

 -                     o ministério de Jesus não tivera o caráter de ministério sacerdotal;

 -                     e a própria morte de Jesus não se apresentava como sacrifício ritual.

         A pessoa de Jesus, segundo a lei de Moisés, não era sacerdotal porque ele não pertencia a uma família de sacerdotes. Entre os hebreus, o sacerdócio transmitia-se exclusivamente pelo caminho da sucessão hereditária. Fora dado por Deus a Aarão e seus filhos. Não se podia conferi-lo a um membro de outra tribo (Nm 3,10-38).

2. Sacerdócio no NT

Para aplicar a Jesus o título de sacerdote, o NT teve que fazer três passos em relação ao AT: um de continuidade, um de novidade e outro de superioridade.

Para tornar-se sumo sacerdote, o Cristo deve renunciar a todo privilégio e ao invés de colocar-se acima do povo, deve fazer-se em tudo semelhante a seus irmãos, aceitando até o abaixamento da paixão. Aí está a novidade.

A continuidade fica por conta do conceito de mediação. A finalidade essencial do sacerdócio sempre foi a de realizar uma mediação entre Deus e os homens. Isso é verdade no AT e verifica-se mais ainda no NT. A mediação requer por parte do sumo sacerdote uma dupla relação: com os homens e com Deus.

Essa dupla relação foi levada à perfeição: o Cristo se fez solidário com os homens e cumpriu assim a vontade de Deus. As separações rituais foram substituídas pelo sofrimento redentor que triunfou sobre o pecado dos homens, unindo o Cristo às provações deles. Foram assim abolidas as barreiras de ambas as partes. O caminho que leva os homens a Deus está aberto (HB 10,19-20).  Filho de Deus e irmão dos homens Cristo é o mediador perfeito. A mediação de Cristo não consiste somente em pôr todo fiel em relação com Deus, mas consiste também em reunir todos os crentes num só povo de Deus. Aqui está a superioridade.

A referência a Cristo mediador é preferível à referência a Cristo-cabeça, que afirma que o sacerdote representa Cristo enquanto é chefe da comunidade e está, por assim dizer, à frente dela. Esta maneira de falar obscurece a função própria de Cristo-sacerdote que consiste em pôr a comunidade em relação com Deus. Em vez disso, falar de mediação dá a perspectiva correta, na qual entra também a função de cabeça ou chefe. Por outro lado, insistir no representar Cristo-cabeça pode conduzir a um conceito autoritário no ministério. Mas é bom ressaltar que o sacerdote ordenado também não é mediador, mas somente sacramento da mediação, que permanece única – a de Cristo.

3. Sacerdócio comum e sacerdócio ministerial

Levando-se em conta o sacerdócio antigo, não há caminho para nossa reflexão, pois nele o culto era ritual, externo, convencional; Cristo o substitui por um culto real, pessoal, existencial. O sacerdócio do Cristo torna possível a comunhão entre todos na relação com Deus. Assim, todos os que crêem são elevados à dignidade sacerdotal.

  

Qual a diferença?

O Concílio afirma que a diferença entre os dois sacerdócios não é de grau, mas de natureza. Se a diferença fosse de grau, seria certamente contrária à igualdade fundamental de todos os cristãos, porque todos estariam no mesmo sacerdócio, porém, alguns em grau superior (mais sacerdotes) e os outros em grau inferior. Ao invés disso, sendo a diferença não de grau, mas de natureza, as relações não são de inferioridade e superioridade, mas são relações orgânicas (de funções) mais complexas.

Podemos dizer que o sacerdócio ministerial está ao mesmo tempo abaixo e acima do sacerdócio comum: está abaixo porque está a serviço do sacerdócio comum, é-lhe subordinado e não teria sentido em si mesmo; está acima porque condiciona o seu exercício; o sacerdócio comum seria impossível sem ele.

É superior porque é mais especificamente sacerdotal, mas pode dizer-se inferior porque é menos realmente sacerdotal, pois é sacramento – apenas sinal de uma realidade. O sacerdócio comum, ao invés, é a oferta real da existência a Deus, da docilidade concreta.

É mais “especificamente sacerdotal”, porque o elemento específico do sacerdócio é a mediação entre Deus e os homens; ora o sacerdócio ministerial é sacramento da mediação de Cristo, isto é, sinal e instrumento de Cristo mediador; e isto o sacerdócio comum não é.

O sacerdote, porém, deve também participar do sacerdócio comum, enquanto oferta real. Exemplo: celebrando a missa, todo presbítero é sinal e instrumento do Cristo mediador que se oferece ao pai e une os crentes em sua oferta. A consagração é ação ministerial; não é ação pessoal do presbítero, não depende do seu mérito. Porém, ao celebrar a missa, o presbítero é chamado a aderir pessoalmente ao mistério; assim como são chamados todos os fiéis. Outro aspecto do mesmo exemplo: um presbítero pode celebrar a missa sem aderir pessoalmente ai sacrifício do Cristo, com sentimentos de ódio para com uma pessoa que o ofendeu. A missa não será inválida; os fiéis poderão comungar; o presbítero terá exercido seu sacerdócio ministerial, recusando ao mesmo tempo exercer o sacerdócio comum, sem estar, por conseguinte, em comunhão com os irmãos.

O sacerdócio ministerial aparece assim melhor na sua grandeza e na sua humildade: é grande na medida em que nele o próprio Cristo age como mediador; é humilde porque se trata de uma atividade que um presbítero não pode atribuir a si mesmo; é humilde também porque está a serviço do sacerdócio comum.

O sacerdócio comum aparece em toda sua humildade e grandeza: é humilde porque deve reconhecer que não basta a si mesmo, mas tem necessidade de uma mediação; é grande na medida em que é oferta real, culto autêntico, transformação na existência.

A consciência da necessária participação de todos, também dos presbíteros, no sacerdócio comum apresente numerosas vantagens: elimina o espírito de dominação que pode existir em certos presbíteros, e o espírito de inveja de certos leigos, aprofundando em todos o senso da igualdade fundamental e da fraternidade cristã.

A justa distinção dá a todos o senso de sua verdadeira dignidade e responsabilidade e permite evitar muitos falsos problemas.

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Trechos da reflexão sobre a Carta aos Hebreus – Albert Vanhoye, S.J.

 

                                      Textos: Sentido do Sacerdócio no Novo Testamento

BGT Revelation 1:6 kai. evpoi,hsen h`ma/j basilei,an( i`erei/j tw/| qew/| kai. patri. auvtou/( auvtw/| h` do,xa kai. to. kra,toj eivj tou.j aivw/naj Îtw/n aivw,nwnÐ\ avmh,nÅ

 BRP Revelation 1:6 E nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória e poder para todo o sempre. Amém.

  

BGT Revelation 5:10 kai. evpoi,hsaj auvtou.j tw/| qew/| h`mw/n basilei,an kai. i`erei/j( kai. basileu,sousin evpi. th/j gh/jÅ

 BRP Revelation 5:10 E para o nosso Deus os fizeste reis e sacerdotes; e eles reinaräo sobre a terra.

 

 BGT Revelation 20:6 maka,rioj kai. a[gioj o` e;cwn me,roj evn th/| avnasta,sei th/| prw,th|\ evpi. tou,twn o` deu,teroj qa,natoj ouvk e;cei evxousi,an( avllV e;sontai i`erei/j tou/ qeou/ kai. tou/ Cristou/ kai. basileu,sousin metV auvtou/ Îta.Ð ci,lia e;thÅ

 BRP Revelation 20:6 Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreiçäo; sobre estes näo tem poder a segunda morte; mas seräo sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinaräo com ele mil anos.

  

BGT 1 Peter 2:5 kai. auvtoi. w`j li,qoi zw/ntej oivkodomei/sqe oi=koj pneumatiko.j eivj i`era,teuma a[gion avnene,gkai pneumatika.j qusi,aj euvprosde,ktouj Îtw/|Ð qew/| dia. VIhsou/ Cristou/Å

 BRP 1 Peter 2:5 Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo.

 

BGT 1 Peter 2:9 u`mei/j de. ge,noj evklekto,n( basi,leion i`era,teuma( e;qnoj a[gion( lao.j eivj peripoi,hsin( o[pwj ta.j avreta.j evxaggei,lhte tou/ evk sko,touj u`ma/j kale,santoj eivj to. qaumasto.n auvtou/ fw/j\

 BRP 1 Peter 2:9 Mas vós sois a geraçäo eleita, o sacerdócio real, a naçäo santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;

  

BGT Hebrews 7:11 Eiv me.n ou=n telei,wsij dia. th/j Leuitikh/j i`erwsu,nhj h=n( o` lao.j ga.r evpV auvth/j nenomoqe,thtai( ti,j e;ti crei,a kata. th.n ta,xin Melcise,dek e[teron avni,stasqai i`ere,a kai. ouv kata. th.n ta,xin VAarw.n le,gesqaiÈ

 BRP Hebrews 7:11 De sorte que, se a perfeiçäo fosse pelo sacerdócio levítico (porque sob ele o povo recebeu a lei), que necessidade havia logo de que outro sacerdote se levantasse, segundo a ordem de Melquisedeque, e näo fosse chamado segundo a ordem de Aräo?

  

BGT Hebrews 10:21 kai. i`ere,a me,gan evpi. to.n oi=kon tou/ qeou/(

 BRP Hebrews 10:21 E tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus,

  

BGT Hebrews 7:21 o` de. meta. o`rkwmosi,aj dia. tou/ le,gontoj pro.j auvto,n\ w;mosen ku,rioj kai. ouv metamelhqh,setai\ su. i`ereu.j eivj to.n aivw/naÅ

 BRP Hebrews 7:21 Mas este com juramento por aquele que lhe disse: Jurou o Senhor, e näo se arrependerá; Tu és sacerdote eternamente, Segundo a ordem de Melquisedeque),

 

 

 

 

 

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ESCREVA PARA: Xavier Cutajar